LEMBRAI-VOS: O NASCIMENTO DO BRASIL

LEMBRAI-VOS: O NASCIMENTO DO BRASIL

Logo após escrever o texto de apresentação da coluna, prontamente me pus a pensar no primeiro tema de fato sobre o qual escreveria e, felizmente, a resposta não demorou a chegar: por onde seria melhor começar senão pelo começo ?

A construção da memória sobre o início da história do nosso país está longe de ser um processo linear e pacífico, pelo contrário: está carregada de peculiaridades e movimentos divergentes. Isso acontece porque a historiografia é atravessada por diferentes valores que variam conforme o tempo, os atores envolvidos e seus objetivos.

A história do Brasil começa a ser contada de modo formal somente em meados de 1800, graças ao imperador D. Pedro II, que realizou o primeiro esforço institucional de organização da historiografia brasileira e de uma narrativa oficial no intuito de criar a identidade da jovem nação. Foram mais de 300 anos sem se saber ao certo como “tudo começou” no país, nem a data de chegada dos colonizadores era sabida. Muito desse “esquecimento” deveu-se à ostracização de Pedro Álvares Cabral, que se indispôs com o rei e tornou-se persona non grata, isto é, alguém que não é bem vindo, e como punição seu nome foi deliberadamente ocultado de tudo.

Todavia, o movimento terceiro-mundista, que emerge após a II Guerra Mundial, traz consigo um forte sentimento anticolonial, fazendo com que as ex-colônias busquem novas identidades, emancipadas de suas antigas metrópoles. Para tanto, faz-se necessário aquilo que chamamos de revisionismo, um movimento que busca atacar a história oficial e erigir uma nova em seu lugar. As primeiras análises críticas da nossa história podem ser traçadas daí.

Entre avanços e retrocessos, a segunda onda revisionista surgiu por volta dos anos 90. O grande fio indutor dessa vez foi a chegada de uma nova democracia, mais pujante, mais plena, verdadeiramente preocupada em dar voz às minorias. Não houve somente críticas, mas também uma tentativa de desimpregnar a história do eurocentrismo, contá-la a partir de outras perspectivas, como a dos povos originários.

Err… Descoberta ?

Espero que o atento leitor tenha notado todo o meu malabarismo para não proferir o termo “descobrimento”. Durante quase todo meu período escolar (até 2013), não havia qualquer problematização em cima do conceito de descoberta, apenas no pré-vestibular a questão me foi apresentada e, ainda assim, em tom reticente. Atualmente os professores abordam o assunto de maneira mais precisa e incisiva. 

A primeira objeção à alcunha tradicional critica a suposta surpresa da chegada dos portugueses ao Brasil. Existem indícios sólidos que confirmam no mínimo a suspeição da existência das terras sulamericanas, de tal modo que não faz sentido falar que o território foi descoberto, mas sim, achado.

Dentre outros, o argumento mais forte do “Achamento do Brasil” é a tese da chegada de Vicente Yáñez Pinzón em Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco (ou Mucuripe, Ceará) em janeiro de 1500, que partiu da Espanha com o objetivo de explorar a região sul da América. A esquadra fez parada nas Ilhas Canárias e de lá foi atingida por uma grande tempestade, que encurtou significativamente o tempo de viagem, mas pode ter desviado o curso pretendido ainda mais para o sul.  

Se os espanhóis chegaram aqui antes, por que “não fizeram nada”? Havia um motivo concreto para não reivindicar a “descoberta” das novas terras e muito menos tomar posse delas, esse motivo era o Tratado de Tordesilhas. Lembremos que Portugal à época era uma potência mundial, capaz de fazer valer seus compromissos e a Espanha ainda estava consolidando sua unificação.

Todavia, o relato da expedição foi registrado com detalhes e sua trajetória posta em mapas rudimentares. Pinzón teve contato com nativos (acredita-se que eram Potiguaras) chegando a entrar em confronto com eles e a capturar alguns, levados como escravos para a Europa. Explorou um rio de dimensões imensas cuja descrição bate com o rio Amazonas e levou espécimes da fauna e da flora comuns da região amazônica.

Um último toque caprichoso da tese diz respeito à carta de D. Manuel I aos Reis Católicos sobre o feito da expedição de Cabral:

“(…) nosso Senhor milagrosamente quis que se achasse aquela terra.”

A tese contrária (e portuguesa, rs) afirma que Pinzón na verdade chegou na Guiana.

A segunda objeção questiona a casualidade da chegada, propondo que o desvio de rota foi intencional. Ao tomar conhecimento da provável existência de terras ao sul da América, Portugal teria preparado uma mega esquadra rumo à Índia com a missão subjacente de declarar posse do tal território.

Entretanto, ao contrário do primeiro pleito, esse não encontra uma base tão sólida e pode ser contra-argumentado sem muitas dificuldades. Primeiramente, o tamanho da esquadra é justamente um argumento contra o desvio intencional, pois denota um investimento massivo — que inclusive contou com capital estrangeiro de Gênova e Florença —, que não poderia ser posto em risco navegando por águas desconhecidas para achar algo. Além disso, o desvio inicial foi recomendado pelo próprio Vasco da Gama, a fim de realizar uma viagem mais eficiente, por questões de correntes, como pode ser observado nas imagens abaixo.

Imagem por Kitnha em shutterstock.com
Ida em verde; Volta em vermelho. Ilustração por Fernando Gonda em flickr.com

A terceira objeção mais notável procura retirar o protagonismo dos europeus colonizadores e centrar a história na perspectiva dos indígenas. Nesse caso a questão torna-se mais conceitual do que propriamente historiográfica, afinal, para os povos originários, o Brasil já tinha sido descoberto milênios antes. A chegada dos portugueses marca o início da invasão e dominação estrangeira, que a partir de então constrói uma nova nação.

Na prática, essa visão é muito mais uma proposta de crítica discursiva do que uma proposta de construção de identidade em âmbito nacional, simplesmente porque a enorme maioria da população brasileira não se vê como indígena. Então, por mais que demonstremos solidariedade ou sintamos empatia, é muito complicado enxergar genuinamente dessa forma. O que não tira a importância desse movimento, claro.

Nossa memória

E afinal, como é a memória social do(a) descobrimento/achamento/invasão na sociedade brasileira? Para ter uma boa dimensão dessa questão, vamos dar uma olhada no artigo “A memória social do descobrimento do Brasil: seu estado em 1999”, de Celso Pereira de Sá e colaboradores.

Esse esquema foi elaborado a partir de uma pesquisa realizada com mais de 700 pessoas de variadas localidades e estratos sociais. A pesquisa consistia em mapear os elementos estruturantes das histórias contadas pelos entrevistados, quando lhes foi solicitado que contassem a história do descobrimento.

Elaboração própria

Os pontos vermelhos seriam os elementos estruturantes; quanto mais alto no eixo de frequência, mais vezes esses elementos foram citados por diferentes pessoas; quanto mais longe no eixo de precedência, maior foi o tempo necessário para que o elemento aparecesse na narração; os elementos estão divididos em 4 grupos de acordo com parâmetros frequência-precedência semelhantes.

Grupo 1 ou núcleo: Frequência alta e precedência maior
Grupo 2 e 3 ou periferias intermediárias: Frequência média e precedência média
Grupo 4 ou periferia: Frequência baixa e precedência menor

O núcleo conta com os elementos centrais do imaginário social, revelando uma memória histórica hegemônica. São eles:

Índios
Portugueses
Caravelas
Pedro Álvares Cabral
Mar
Terras
Descobrimento

A memória básica pode ser contada da seguinte forma: Portugueses, liderados por Pedro Álvares Cabral, vieram pelo mar em caravelas descobrir novas terras, onde habitavam índios.

À medida que as pessoas se aprofundam na narração, elementos diversos surgem, nem sempre de modo coerente. Aliás, no próprio grupo central podemos notar um certo atrito com a realidade factual, pois a maior parte da esquadra era formada por naus e não caravelas (9 naus e 3 caravelas), mas por algum motivo as caravelas ganharam o gosto popular.

No segundo grupo nota-se a presença de críticas mais antigas centradas na denúncia da exploração.

Exploração
Riquezas
Escravidão
Pau-Brasil

No terceiro grupo observa-se a presença das críticas mais recentes que denunciam o genocídio indígena, dentre outros elementos redundantes omitidos aqui.

Invasão
Massacre
Terra-dos-índios
Não-descoberta

No último grupo encontramos elementos pertencentes à história tradicional.

Natureza
Colonização
Comércio
Surpresa
Escambo
Miscigenação

Também há elementos oriundos de análises alternativas realistas ou deturpadas (por exemplo, os jesuítas são comumente citados, mas os religiosos a bordo eram franciscanos).

Missa
Carta de Pero Vaz de Caminha
Aculturação
Lutas
Jesuítas
Porto Seguro
Desenvolvimento

A origem de uma nação é ponto crítico na formação da identidade nacional e por isso vira objeto de disputa dos diferentes grupos que a compõem, mas não somente, no caso particular da experiência colonial, outros países também se envolvem e dão a sua contribuição — sempre interessada — ao debate. 

E então, concorda com alguma visão em particular? Ou, de repente, mais de uma delas? Como você contaria essa história?

Referências

SÁ, Celso P. , OLIVEIRA, Denize C. e NAIFF, Dênis G. M. A memória social do descobrimento do Brasil: seu estado em 1999. Temas em psicologia da SBP, vol. 8. Rio de Janeiro, 2000.

ARAÚJO, Luís M. Carta de D. Manuel aos Reis Católicos. Universidade Nova de Lisboa. Lisboa

ALVIM, Mariana. Por que a palavra ‘descobrimento’ renovou polêmica em Portugal sobre a conquista de terras como o Brasil. BBC News, São Paulo, 12/05/2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44035313. Acesso em: 13/05/2021

O DESCOBRIMENTO DO BRASIL | EDUARDO BUENO. Flocks.TV, 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=byB2s3BM7Y8. Acesso em: 13/05/2021

O “DESCOBRIMENTO” DO BRASIL – HISTÓRIA DO BRASIL PELO BRASIL (Episódio 1) – Débora Aladim. Débora Aladim, 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=amV13tcqti8 . Acesso em: 14/05/2021

DESCOBRIMENTO do Brasil – Brasil Escola. Brasil Escola, 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Mm-jN67XNts. Acesso em: 14/05/2021

PINZÓN DESCOBRIU, MAS NÃO LEVOU – EDUARDO BUENO. Flocks.TV, 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=l73_9kk4J8k. Acesso em: 28/05/2021



Iago Dalfior

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