LEMBRAI-VOS: OS INCONFIDENTES DO BRASIL

LEMBRAI-VOS: OS INCONFIDENTES DO BRASIL

Olá, seja bem vindo a mais um capítulo de Fabula Orbi, onde contamos a história da história. Novo por aqui? Confira nossos textos anteriores!

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Tudo que reluz é ouro

O século XVIII foi batizado de “Século das Luzes” devido ao esplendor do movimento iluminista, que catalisou movimentos poderosos como a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa e cujos desdobramentos foram essenciais para a formação da sociedade ocidental moderna. No Brasil, a vida ainda avançava numa cadência mais lenta, própria de uma sociedade voltada à cultura rural com poucos pólos urbanos dispersos por um grande grande território e sob o domínio do rígido pacto colonial português. No entanto, algo por aqui também reluzia a ponto de marcar a história do país: o ouro de Minas Gerais.

As primeiras jazidas de ouro brasileiras foram descobertas nos últimos anos do século XVII no interior de Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, esta última consolidando-se como a grande fonte do minério. A partir desse momento e durante o século seguinte, a província se tornou o motor econômico da colônia e sua capital, uma das principais cidades americanas da época, atraindo imigrantes aos milhares — sua população aumentou 10 vezes de um século para o outro. 

O patamar alcançado por Minas Gerais não foi à toa, afinal forneceu à Portugal a maior extração de ouro da história até aquele momento. Em decorrência do aumento massivo da circulação de pessoas e riqueza, verificou-se o surgimento de diversos povoamentos urbanos, a formação de um mercado consumidor interno e de uma classe média, elementos essenciais para dotar a colônia de alguma complexidade social. A guinada econômica também alavancou a produção cultural e permitiu o florescimento de uma certa elite intelectual, que como não poderia deixar de ser, bebeu do iluminismo europeu sob as influências estadunidenses e francesas.

É nesse contexto que tem origem a história mais contada do Brasil: a Inconfidência Mineira. Okay, para a insatisfação da revisão do canal (oi, Talita), não há como afirmar isso de verdade, mas o fato é que é muito difícil achar um evento tão antigo e de tanta repercussão histórica como foi o movimento dos inconfidentes. Sua história foi aviltada pelo império, exacerbada pelos republicanos revolucionários, redefinida pelos republicanos governistas, virada do avesso pelo regime de 64 e recuperada com críticas na redemocratização.

Libertas quae sera tamen 

A partir de meados do século XVIII, por volta de 1760, a extração do ouro começou a declinar. A autoridade real, alimentada pela crença da época de que o ouro de Minas era infindável, colocou a culpa no contrabando e, portanto, recorreu a expedientes mais efetivos para a cobrança dos impostos e sua fiscalização. Dentre outras, a medida mais dura foi a ameaça da derrama, que consistia no confisco à força do patrimônio dos brasileiros com vistas a completar a cota de imposto anual da província.

Tão logo um novo governador, mais autoritário, foi indicado para a administração de Minas Gerais em 1788, a insatisfação local chegou ao ápice, gerando um movimento conspiracionista, que tinha como objetivo maior declarar a independência de Minas da metrópole e instaurar uma república como forma de governo. Havia outros pontos em discussão na agenda dos inconfidentes, mas nenhum de consenso, por exemplo a abolição da escravatura e a integração de outras províncias da colônia na nova república levantava opiniões divergentes.

Todavia, porém, o movimento jamais saiu do papel, isso porque a rebelião foi delatada assim que havia sido marcada (no dia da cobrança da derrama) e todos os seus líderes foram presos e processados. Dos 12 condenados à morte, 11 tiveram sua pena convertida em degredo, menos um, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que é executado ao recusar-se negar os princípios do movimento.

O conhecimento concreto da vida de Tiradentes é quase tão nebuloso quanto o da Inconfidência. Sabe-se que seus pais eram pequenos proprietários de terra e que ficou órfão cedo, vindo a perder a propriedade delas; em seguida foi viver com seu tio, com quem aprendeu o ofício de dentista e quando mais velho ingressou na carreira militar, onde serviu como alferes. Seus pensamentos e mesmo sua aparência física não se encontram registrados em lugar algum.

Fato que só facilita a construção histórica de uma figura, afinal quando se é “imortal”, pouco importa quem a pessoa de fato foi, mas o que desejam que ela represente e no caso de Tiradentes, a necessidade fez o herói. Por mais que a história da Inconfidência tenha sido retorcida ao longo do tempo, Tiradentes, desde a primeira geração republicana, se manteve como o mártir perfeito, aquele que morreu sem agredir por ideais de liberdade.

A narrativa da vida pública de Tiradentes é estruturada por elementos similares à crucificação de Jesus Cristo. Dada a pouca substância da identidade nacional à época da proclamação da República, apelar ao imaginário católico foi uma boa estratégia para criar o herói nacional.

MártirJesusTiradentes
Poder OpressorImpério RomanoImpério Português
IdeaisLiberdade
Grupo12 apóstolos12 inconfidentes
Morreu porAmor aos homensAmor à terra natal
Traído porJudasJoaquim Silvério
Via CrucisDo pretório ao calvário Da prisão ao Rocio 
PenaCruzForca

Herança

Durante o império, os inconfidentes foram marcados como traidores e sua história virou motivo de vergonha, para em seguida adentrar o ostracismo, até mesmo após a Independência, visto que os imperadores tinham motivos claros para mantê-la no esquecimento. Entretanto, cada regime que se seguiu na história do Brasil, tratou de exaltar a Inconfidência e reivindicar seus valores como forma de legitimação.

A história da inconfidência e de Tiradentes começou a ser recuperada ainda durante o reinado de Dom Pedro II pelos oposicionistas republicanos. Além da canonização cívica de Tiradentes, os republicanos tingiram a Inconfidência Mineira com as cores do Brasil, embora o movimento não fosse de porte nacional e sequer fosse provável haver identificação com o resto do país. O projeto era restrito a Minas Gerais com no máximo algum apoio para se expandir para outras regiões próximas.

Quando a república é proclamada e a monarquia deposta, os republicanos mantêm a exaltação aos inconfidentes — o primeiro ato de governo foi declarar o feriado nacional de Tiradentes — entretanto, à medida que o tempo passa, há uma mudança notável na narrativa para um tom mais complacente e menos radical, como uma espécie de reconciliação com o passado e forma de desincentivo a manifestações violentas, algo que reflete bem a nova posição assumida pelos republicanos, outrora opositores, agora situacionistas.

Outra torção notável na história da Inconfidência ocorreu durante a ditadura militar. A cultura política do Regime de 64 baseava-se no anticomunismo e na presença de um Estado forte, autoritário e nacionalista que pudesse garantir a liberdade necessária (ameaçada pelo comunismo). O governo, identificando-se como protetor da liberdade, aproximava-se da insubmissão dos Inconfidentes frente ao domínio estrangeiro.

E finalmente, os novos tempos trouxeram uma perspectiva mais crítica da Inconfidência Mineira ao desmistificar a figura de Tiradentes e apontar certas inconsistências históricas alimentadas por diferentes projetos políticos que buscaram se legitimar usando a história. Além da clarificação de alguns pontos manipulados, parte da historiografia atual preocupa-se em analisar a escolha da Inconfidência, um movimento notadamente elitista, como tradição em detrimento de movimentos de origem popular, que por sua vez deparam-se com o esquecimento. 

Referências Bibliográficas

DOLCI, Mariana C. A construção da memória de Tiradentes no museu paulista e no museu da inconfidência. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2014.

BEIRIGO, Isabel C. F. Usos da memória da inconfidência, mineiridade e a projeção política de Tancredo Neves (1974-1985). Universidade Federal de São João Del Rei. São João Del Rei, 2011.

Débora Aladim. Resumo de História: INCONFIDÊNCIA MINEIRA e TIRADENTES – em Ouro Preto, MG! (Débora Aladim). Youtube, 2019. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6UDsBW-we34>

Buenas Ideias. A HISTÓRIA POR TRÁS DE TIRADENTES | EDUARDO BUENO. Youtube, 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=dKXwQHCDV4Q>

Nerdologia. Tiradentes | Nerdologia. Youtube, 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=wADmQiM8XZY>

Iago Dalfior

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