LEMBRAI-VOS: A DIÁSPORA NEGRA

LEMBRAI-VOS: A DIÁSPORA NEGRA

Olá, seja bem vindo a mais um capítulo de Fabula Orbi, onde contamos a história da história. Novo por aqui? Confira nossos textos anteriores!

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Diáspora é o deslocamento de uma população, forçado ou não, de uma região para várias outras. Difere-se de conceitos semelhantes, como migração ou refúgio, pois confere maior profundidade ao fenômeno ao imprimir-lhe alta carga histórica e coletiva. Isto é, não se trata de um acontecimento pontual, nem pode ser explicado somente por fatores contextuais, tampouco se limita a parcelas específicas da população em movimento e sequer é reversível.

Muitos povos, de várias raças e etnias, se dispersaram ou foram dispersos pelo mundo. O termo foi usado primeiramente com os Hebreus, quando deixaram a Babilônia e desde então, numerosos movimentos semelhantes ajudaram a povoar o planeta. No entanto, nenhuma diáspora foi tão ampla e violenta como a africana.

Mas antes de abordar o capítulo mais dramático dessa experiência, convém elucidar um pouco da história dos povos subsaarianos antes do sequestro europeu. A marcha negra não começa nos navios negreiros, muito pelo contrário: à altura da colonização o mundo há muito desfrutava do legado destes povos.

CIVILIZANDO O MUNDO

Conforme o avanço dos estudos de arqueologia e linguística, uma nova Pré-História veio à tona. Na historiografia tradicional, os semitas (conjunto étnico que habitava o Crescente Fértil, região que se estende da Mesopotâmia ao Egito) são colocados como o epicentro do desenvolvimento humano no Neolítico (9000 a.c. — 3000 a.c.). Entretanto, desde o início do período, e até mesmo antes, verifica-se a existência de instrumentos avançados e vestígios de um estilo de vida complexo entre os antigos povos negros.

Hoje, sabe-se que a região sul do Saara — na época úmida e coberta por vegetação — era habitada por aldeias ribeirinhas seminômades, que subsistiam da caça, da coleta e da pesca. Produziam ferramentas de cerâmica, criavam gado (caprino principalmente), sabiam preparar pasto, lareiras e peças de vestuário de couro.

Portanto, conclui-se que esses povos ancestrais formavam em seu conjunto um polo de disseminação civilizatória tão poderoso quanto os seus vizinhos ao norte.

Terminado o Neolítico, inicia-se a Idade dos Metais (3000 a.c. — 1000 a.c.) e dos primeiros impérios. E mais uma vez a história tradicional despreza o papel desempenhado pelas culturas negras.

A desertificação do Saara forçou os habitantes locais a migrarem ainda mais para o sul e se transformou numa árdua barreira geográfica, que os separava do intercâmbio euroasiático. Mas não o suficiente para deixá-los isolados.

O Antigo Egito, pináculo do desenvolvimento humano durante milhares de anos, não era um mundo fechado em si mesmo, como muitos são levados a crer. Muito pelo contrário, estava em contato constante com outras nações, fazendo comércio ou guerra.

Dentre essas nações, o Império de Kush, na Núbia (atual Sudão), era um poder global ao sul do Nilo, que rivalizava com o Estado egípcio e também mantinha, por sua vez, relações comerciais, diplomáticas e de conflito com os demais povos. Inclusive, quando o Egito caiu sob domínio de Roma, esta quis estender o seu mandato sobre a Núbia, mas foi derrotada em guerra e Kush manteve a sua autonomia frente a outro grande poder histórico.

As relações entre os dois impérios era bastante ativa e passou por fases diversas, houve momentos em que os dois eram unidades independentes e outros em que Kush esteve sob o governo do Egito, integrando seu sistema imperial. Existiu ainda um período de 60 anos em que Kush dominou o Egito, sob o governo da 25ª dinastia — uma dinastia de faraós negros.

Pela proximidade geográfica e cultural dos dois reinos durante tanto tempo, é seguro presumir que ambos tinham um nível significativo de diversidade racial na composição dos seus povos. Então, sim, também construímos uma das maiores civilizações da história.

No desenrolar da Idade Média, outros grandes impérios surgiram na África. Ao leste, Aksum emergiu após o declínio de Kush. A oeste, Mali – reino de Mansa Musa, o homem mais rico da história – e Songhai; ao sul, o Grande Zimbábue. Sociedades complexas, ricas e poderosas.

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ESCRAVIDÃO

A escravidão foi o modo de trabalho essencial dos impérios antigos, geralmente imposto sobre os derrotados das tribos ou cidades menores subjugadas pelo poder central. Nunca houve qualquer excepcionalidade geográfica ou racial quanto ao trabalho escravo até a expansão europeia.

Os escravizados desempenhavam funções diversas: trabalhos braçais (lavoura, edificações), serviços domésticos, sexuais, artísticos (música, poesia, etc), educacionais (ensinavam ofícios aos filhos dos senhores) e também podiam ser incorporados como soldados ou lutar como gladiadores.

O fluxo de mão de obra escrava corria em todas as direções. A África sempre “exportou”, mas também “importava”: era possível encontrar escravizados brancos, árabes, hindus ou chineses nas cortes africanas.

Os escravos eram, portanto, um “produto” comercializável como qualquer outro. Tinha oferta, demanda, mercado e tudo o mais.

Principais fluxos da escravidão antes do colonialismo. ²

Aí veio o capitalismo.

O capitalismo é a grande força motriz por detrás do desenvolvimento dos Estados europeus. Um sistema capaz de alavancar brutalmente a produtividade de uma sociedade através do reinvestimento sucessivo de capital a fim de expandir os negócios, para gerar mais capital e continuar o processo, como num ciclo infinito. 

Uma das principais consequências — e, ao mesmo tempo, causa — do êxito capitalista é a divisão e especialização do trabalho. Uma pessoa é mais produtiva especializando-se numa função e o mesmo é válido para países inteiros, que passam a desenvolver uma espécie de “vocação” para desenvolver certos produtos. Claro, não há nada de natural nesse processo, como vocês poderão ver em detalhes na coluna La Plata.  

Acontece que, por uma série de fatores, a África tornou-se o celeiro do produto escravo. As elites locais foram prontamente envolvidas no lucrativo comércio de escravizados, pois ganhavam dinheiro e armas, que utilizavam para reforçar o seu poder na região e capturar mais escravos. 

Do século XVI ao XVIII, operou uma verdadeira indústria de tráfico humano no Oceano Atlântico, graças à cooperação de poderes locais viciados pelas riquezas do colonialismo. Até que no século XIX, a Europa acumulou força o suficiente para descartar os intermediários e entrar ela mesmo no continente. 

Alguns números¹: 

  • 10,6 milhões de pessoas sequestradas e trazidas para as Américas
  • 64,5% do total foram homens
  • 21,5% do total foram crianças
  • 9,2 milhões desembarcaram, cerca de 12% morreram no caminho

O trabalho que o cativo passou a desempenhar também já não tinha a ver com aquele do passado. O ser escravizado deveria cumprir com uma função de máquina, até ser completamente exaurido e descartado sem vida ou inválido.

Principais rotas do tráfico transatlântico de escravizados. slavevoyage.org

BRASIL

O Brasil foi o maior receptor individual do tráfico transatlântico, recebendo cerca de 30% do fluxo total (3,5 milhões). Os navios partiam principalmente de Angola, do Congo e de Benin até Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. 

Os africanos que aqui chegaram, permaneceram sob a condição de escravos por mais de 350 anos. A estrutura econômica profundamente dependente daquele tipo de mão de obra criou uma elite política proporcionalmente conservadora, de modo que lutaram para preservar o sistema escravista tanto quanto possível. 

O fluxo diaspórico se encerra por volta de 1856 em virtude da efetivação da Lei Eusébio de Queirós, promulgada em 1850. Todavia, ainda demoraria mais de 30 anos para a assinatura da Lei Áurea. 

Uma vez alforriados, estariam os negros de fato livres para viverem no Novo Mundo?

Negativo.

O negro no Brasil ainda teria que lutar com unhas e dentes pelo seu lugar naquela sociedade por muitas décadas que viriam, visto que a partir da Abolição tem-se início o projeto institucional de branqueamento da população. A estratégia baseava-se na segregação e marginalização dos africanos e de seus descendentes, aliada a ondas migratórias vindas da Europa, estimuladas pelo governo. Intelectuais e políticos da época faziam cálculos para estimar quanto tempo levaria para extirpar o componente negro da nação.

Isso, meus amigos, tem nome, chama-se genocídio. Mas não vou ater-me ao assunto, dado o desgaste da palavra nos últimos tempos. Além do mais, precisaria de outro texto para argumentar devidamente.

Chegados os dias atuais, mesmo com todos os problemas — e não são poucos — os filhos da Diáspora estão vivos, lutando e prosperando. Expor os crimes e as mazelas do passado não deveria causar constrangimentos, e sim, reverência por nossos antepassados. 

Se a colonização borrou nossa ancestralidade, nos apeguemos então àqueles do passado recente, que ousaram sobreviver e fecundar esta terra. 

Um bom 20 de Novembro.

Aqui chegamos, aqui ficamos. freepik.com

Referências Bibliográficas

¹ slavevoyages.org

² A África do século XVI ao século XVIII. 2ª ed rev. Brasília : UNESCO, 2010. p.1 54

BARBOSA, Muryatan S. A África por elas mesma: a perspectiva africana na História Geral da África. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2012.

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1978.

Kings and Generals. Nubia – Christian Kingdoms in the Heart of Africa. Youtube, 02/2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=jKIoLwKYpuY>

Iago Dalfior

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