BANGLADESH E OS DESAFIOS NOS 50 ANOS DE INDEPENDÊNCIA

BANGLADESH E OS DESAFIOS NOS 50 ANOS DE INDEPENDÊNCIA

Foto: Canva

Em 2021, Bangladesh completou 50 anos de independência do domínio do Paquistão, que por muito tempo foi uma colônia britânica. O país é considerado um dos mais pobres e corruptos do mundo. Por outro lado, os bengalis tentam crescer economicamente para sair do mapa dos países menos desenvolvidos, tanto que as estimativas para 2020 apontam percentuais de expansão superiores até mesmo aos da China, o primo rico do continente asiático.

Desta forma, o objetivo deste artigo é trazer um pouco do que aconteceu em Bangladesh desde a sua independência. O texto procura abordar o contexto histórico, a atualidade e curiosidades, para que os leitores dos Dois Níveis conheçam mais sobre essa nação do sul da Ásia que, a exemplo de outros países no continente, enfrentou recentemente muitos problemas com a pandemia da Covid-19 por causa de políticas ineficazes de combate à doença.

Onde está Bangladesh?

Imagem: Canva

A República Popular de Bangladesh fica na Ásia Meridional e grande maioria do seu território faz fronteira com a Índia, com exceção de parte do sudeste, que fica na divisa com Myanmar, e do Sul, onde está a Baía de Bengali. A capital do país é Dhaka, o idioma oficial é o bengali e a religião predominante é o Islam (BRITANNICA, 2021).

A chefe de Governo é a primeira-ministra Sheikh Hasina Wazed, desde 2009, e o chefe de Estado é o presidente Abdul Hamid, desde 2013 (BANGLADESH, 2021). Apesar de não estar entre os países com as maiores extensões de área (147.570 km², equivalente ao estado do Amapá), Bangladesh é o oitavo país mais populoso do mundo, com 169,3 milhões de habitantes em 2021 (CEICDATA, 2021).

Resumindo o passado

Bangladesh fez, por séculos, parte da região de Bengala. Com o fim do domínio britânico, na primeira metade do século XX, a área foi dividida entre Índia e Paquistão, que por sua vez foi delimitado entre Paquistão Ocidental e Paquistão Oriental. A parte oriental se tornou Bangladesh, em 1971 (BRITANNICA, 2021). 

Bengala foi, primeiramente, explorada, principalmente do ponto de vista econômico, por portugueses, franceses e holandeses até a chegada da Companhia Britânica das Índias Orientais, por onde começaria de fato o domínio britânico, em 1757, ao tomar o controle de Bengala na Batalha de Plassey (SIDDIQUI, 2021).

Mas as políticas adotadas pelos britânicos para a região foram catastróficas e mostram desde aquela época, a indignação da colônia com a metrópole. A má gestão resultou, entre outras consequências, na redução drástica da população vítima das sucessivas crises de fome que os assolaram, sem falar nos seculares problemas ambientais. Até os dias atuais, boa parte das pessoas ainda passa fome e Bangladesh é um dos países mais vulneráveis a adversidades climáticas no planeta. Siddiqui (2021) define a situação da seguinte maneira:

“A fome se espalhou assim como os britânicos aumentaram a cobrança de impostos, reduziram os empregos e falharam ao combater na resposta aos problemas das secas e inundações. Em 1769-70, dez milhões de bengalis morreram de fome. No sul de Bengala, a fome resultou em uma perda de população de 33% a 50%.” (Idem, 2021, p.14, tradução minha).

A independência

Uma das poucas semelhanças (talvez a única) entre o Paquistão Oriental (antiga Bengala Oriental,nome alterado em 1955) e o Paquistão Ocidental era a religião islâmica. A distância que separava os dois territórios era de 1.500 km, separados pela Índia ao meio (os dois não faziam fronteira). Culturalmente e socialmente, também eram totalmente diferentes e o poderio político e militar estava concentrado na parte Oeste, enquanto o Leste era explorado economicamente, o que levou a muitas queixas por parte do lado Oriental (HASAN, 2018, p. 2-3).

Apesar das duas partes separadas, o Paquistão era um Estado. E alguns outros fatores alimentaram as divergências ao longo dos anos e, consequentemente, o desejo Oriental pela independência. Um deles foi o conflito quanto à língua oficial. Mohammad Ali Jinnah, o fundador do país (considerado o pai da pátria paquistanesa), declarou em 1948 que o urdu (língua oficial paquistanesa na atualidade) seria a única língua, gerando protestos por parte da população do East Pakistan, onde o bengali era o idioma predominante, principalmente por estudantes da capital Dhaka (Idem, 2018, p. 7).

Essa divergência continuaria nos anos seguintes por conta do discurso do sucessor de Jinnah, Khawaja Nazimuddin, que defendeu o urdu como língua única em um discurso em janeiro de 1952. A situação já estava insustentável e resultou, dias depois, no memorável protesto de 21 de fevereiro daquele ano, em que estudantes e polícia partiram para o confronto, provocando mortes e destruições. Atualmente, 21 de Fevereiro é o Dia Internacional da Língua Materna, uma forma de reconhecimento do bengali como idioma oficial do país, reconhecido pela UNESCO em 1999 e oficializado em resolução em 2008 (Ibidem, 2018, p. 8).

Vista da capital Dhaka. Foto: Canva

Guimarães (2018), cônsul honorário de Bangladesh no Paraná, resume o sentimento da população do Paquistão Oriental em relação ao Paquistão Ocidental e aos principais fatos que levaram à Guerra da Libertação, como ficou conhecido o conflito de libertação de Bangladesh do domínio paquistanês.

A falta de autonomia do Paquistão Oriental foi outro motivo de revolta. O lado Ocidental, que estava em uma fase de frequentes conflitos com a Índia pela região da Caxemira não recebeu com bons olhos a ideia dos bengalis de reivindicar direitos e começou a classificá-los como “agentes indianos”. E de fato a Índia viria a ser um fiel da balança para o East Pakistan na luta pela independência, apesar da diferença religiosa, pois os paquistaneses eram muçulmanos e os indianos hindus, como relata o jornalista Shamil Shams (DEUTSCHE WELLE, 2017).

Mas o estopim para a Guerra da Libertação foi o fato de o então presidente paquistanês Yahya Khan não reconhecer, em 1970, a liderança do Sheikh Mujibur Rahman na província oriental (GUIMARÃES, 2018). Anos antes, Rahman já havia organizado todo um movimento pela independência do Paquistão Oriental. Em novembro de 1969, ele declarou que o país passaria a se chamar Bangladesh com as seguintes palavras (HASAN, 2018, p. 31)

“Havia um tempo em que todos os esforços eram feitos para apagar a palavra Bengala dessa terra e desse mapa. A existência da palavra bengala não era encontrada em nenhum lugar, exceto no termo Baía de Bengala. Eu, em nome do Paquistão, anuncio hoje que essa terra será chamada Bangladesh ao invés de Paquistão Oriental.” (Idem, p. 31, tradução minha).

As eleições gerais foram convocadas em 1970 pelo presidente Yahya e estas foram um marco da libertação de Bangladesh. Contudo, naquele ano, apesar da vitória expressiva da Liga de Awami (ou Liga Popular de Bangladesh, partido político ao qual pertencia Rahman), a liderança no novo país ainda não estava oficializada, pois o governo ainda relutava em conceder a independência ao Paquistão Oriental. E assim a situação perdurou até o início de 1971 (THAKUR, 2021, p. 239).

As consequências foram drásticas e geraram protestos violentos, em um conflito que começou em 26 de março de 1971, quando Rahman declarou a independência de Bangladesh, e terminou em 16 de dezembro do mesmo ano, quando os bengalis foram de fato libertados do domínio do inimigo, tornando-se enfim, Bangladesh (Idem, 2021, p. 239). Como todo conflito tem seu preço, com a Guerra de Libertação não foi diferente: três milhões de vidas foram perdidas (Ibidem, 2021, p. 239).

Dias atuais e desafios

A independência impõe desafios para os países que a conquistam e não foi diferente com os bengalis. Um deles é o combate à corrupção. O país ocupa a 146ª posição entre 180 países avaliados no relatório “Índice de Percepção da Corrupção 2020”, cuja conclusão foi a de que o país pouco avançou nos esforços anticorrupção, com diversas promessas de reforma não cumpridas pelo governo (TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL, 2020).

O país teve um dos piores desempenhos entre os da Ásia-Pacífico, com 26 pontos de uma pontuação de 100. Quanto mais longe da nota máxima, menor a evolução no combate à corrupção. Fazendo uma ligação com a pandemia da COVID-19, os países menos transparentes foram os que menos investiram em saúde, enquanto a corrupção aumentou. A presidente global da Transparência Internacional, Delia Ferreira Rubio, definiu a situação de Bangladesh e outros países avaliados da seguinte forma (idem, 2020).

“A COVID-19 não é apenas uma crise econômica e de saúde. É uma crise de corrupção. E é uma crise em cuja gestão estamos fracassando.” (Ibidem, 2020).

A infraestrutura é outro desafio para Bangladesh. Um exemplo dessa carência é a velocidade da Internet. O país ocupa a 137ª colocação em um ranking de 180 países. Apesar da pequena extensão territorial, que poderia proporcionar custos mais baratos para a melhoria da conexão, a falta de investimentos é um dos motivos que contribuem para esta situação (VISUAL CAPITALIST, 2021).

Em outro tema bastante em evidência nos dias de hoje, Bangladesh está no bloco intermediário (12ª posição entre 20 países) entre os países asiáticos com política de comércio sustentável, que engloba crescimento econômico, proteção ambiental e desenvolvimento de capital social. Avaliando cada um dos itens separadamente, o país ocupa as seguintes colocações: 11ª no pilar econômico, 9ª no capital social e 16ª no pilar ambiental (VISUAL CAPITALIST, 2021). 

Presidente Abdul Hamid e primeira-ministra Sheikh Hasina. Foto: Daily Sun

Considerações finais

Ainda há muitos problemas e barreiras que Bangladesh precisa superar para consolidar seu esforço de sair do mapa dos países mais pobres e menos desenvolvidos do mundo. O país tem feito esforços para alcançar esse objetivo, mas há fatores fundamentais para consolidar essa expansão. Um dos mais cruciais é investir em educação para os jovens, visto que pouco mais de um quarto da população (27%) tem menos de 15 anos e preparar essa geração é um ponto chave para o futuro.

No entanto, deve-se reconhecer que o país tem buscado um crescimento econômico para deixar de figurar na lista dos países com maiores índices de pobreza. A parcela da população nesta situação diminuiu na última década. E no ano passado, por exemplo, o país chegou a mostrar índices de crescimento superiores aos da China, o primo rico da Ásia, mesmo na pandemia.

O esforço tem sido reconhecido pela comunidade internacional e regional. Neste ano, o país também entrou para o Banco de Desenvolvimento dos BRICS, uma alternativa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional para promover a expansão de países sócios do bloco e essa medida pode beneficiar os bengalis. Mas como em todo país em desenvolvimento, ajustes precisarão ser feitos para que Bangladesh entre nos eixos e continue no processo de evolução.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANGLADESH GOVERNMENT. Disponível em <https://www.bangladesh.gov.bd>. Acesso em 02/10/2021.

BRITANNICA. Disponível em <https://www.britannica.com/place/Bangladesh>. Acesso em 28/09/2021.

CEICDATA. Disponível em <https://www.ceicdata.com/pt/indicator/bangladesh/population>. Acesso em 01/10/2021.

DEUTSCHE WELLE. Opinião: 70 anos de ódio entre Índia e Paquistão. Disponível em <https://www.dw.com/pt-br/opini%C3%A3o-70-anos-de-%C3%B3dio-entre-%C3%ADndia-e-paquist%C3%A3o/a-40087613>. Acesso em 29/09/2021.

DKAHA TRIBUNE. Bangladesh set to celebrate Independence Day Friday. Disponível em <https://www.dhakatribune.com/bangladesh/2021/03/25/bangladesh-set-to-celebrate-independence-day-friday>. Acesso em 01/10/2021.

DOIS NÍVEIS. A Caxemira e o conflito de mais de 70 anos entre Índia e Paquistão. Disponível em <https://www.doisniveis.com/doisniveis/a-caxemira-e-o-conflito-de-mais-de-70-anos-entre-india-e-paquistao/>. Acesso em 02/10/2021.

GUIMARÃES, Marcelo Grendel. Dia da Independência de Bangladesh. Disponível em <https://internacionalizese.blogspot.com/2018/03/dia-da-independencia-de-bangladesh.html>. Acesso em 03/10/2021.

HASAN, Mahady Md. Bangladesh: A brief history of seven decades. 2018.edição do Kindle.

OBSERVATÓRIO 3º SETOR. País que foi o menos desenvolvido do mundo supera a China em crescimento. Disponível em <https://observatorio3setor.org.br/noticias/pais-que-foi-o-menos-desenvolvido-do-mundo-supera-a-china-em-crescimento/>. Acesso em 30/09/2021.

SIDDIQUI, Habib. Bangladesh: A Polarized and Divided Nation? First Printing, 2021. Edição do Kindle.

THAKUR, Viswannathan. History of Bangladesh World and Civilization. 2021. Edição do Kindle.

TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL. Índice de Percepção da Corrupção 2020. Disponível em <https://comunidade.transparenciainternacional.org.br/ipc-indice-de-percepcao-da-corrupcao-2020>. Acesso em 04/10/2021.

VISUAL CAPITALIST. Mapped the fastest and slowest internet speeds in the world. Disponível em <https://www.visualcapitalist.com/mapped-the-fastest-and-slowest-internet-speeds-in-the-world/>. Acesso em 03/10/2021.

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IMAGENS

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CANVA. Mapa de Bangladesh. Disponível em <https://www.canva.com/design/DAErzRLgn0o/1Jswau5CwolZpDnB6IVd8g/edit>. Acesso em 01/10/2021.

 CANVA. Vista de Dhaka. Disponível em <https://www.canva.com/design/DAErzaXBB5U/TrrnkM2CgYXE-IWAD-EE3Q/edit>. Aceso em 01/10/2021

DAILY SUN. Prime Minister Sheikh Hasina meets President Abdul Hamid. Disponível em <https://www.daily-sun.com/printversion/details/470920/Prime-Minister-Sheikh-Hasina-meets-President-Abdul-Hamid>. Acesso em 02/10/2021

Autor

Pablo de Deus Ulisses

Jornalista e estudante do 3° semestre de Relações Internacionais na Estácio de Sá.

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