O PERFIL DOS PROTESTOS: JUVENTUDE, IDENTIDADE DIGITAL E CULTURA POP NO SUDESTE ASIÁTICO

O PERFIL DOS PROTESTOS: JUVENTUDE, IDENTIDADE DIGITAL E CULTURA POP NO SUDESTE ASIÁTICO

FONTE: Daily Mail

Nos últimos anos, certos países no sudeste e no leste asiático – em particular, Tailândia, Malásia,  Myanmar, Hong Kong e Taiwan – viram significativos movimentos de protesto popular pró-democracia, como resposta às ações de regimes autoritários sobre estas populações. Neste aspecto, o presente artigo pretende abordar três características em particular destes movimentos, a saber a grande presença de jovens e, a partir disso, a alta digitalização e o uso de símbolos da cultura pop. Estas características, resultantes de um mundo cada vez mais conectado, podem representar  significativas mudanças para o panorama político da região se utilizadas de maneira correta.

MOVIMENTOS SOCIAIS CONTEMPORÂNEOS NO SUDESTE ASIÁTICO

Apenas entre 2020 e 2021, a insatisfação com o poder do Rei Maha Vajiralongkorn da Tailândia, o golpe de Estado que derrubou a primeira-ministra Aung San Suu Kyi em Myanmar, a aprovação da já infame, e a resposta insatisfatória do Governo de Muhyiddin Yassin à pandemia do Covid-19 na Malásia inspiraram um crescente número de protestos nestes países. A população, alienada de seus governos, se volta para as ruas como forma de exigir e exercer seus direitos sociais e políticos. Assim como a grande parte dos movimentos da última década – desde a Primavera Árabe em 2010 até o Black Lives Matter de 2020 – estes protestos, sobretudo nos dois primeiros casos, se caracterizam por uma forte presença online.

Enquanto protestos ao longo da história se caracterizam em grande medida pela demografia mais jovem (CASTRO e PINHEIRO-MACHADO, 2020), o crescimento da comunicação em rede na última década faz com que a geração ativista de hoje – a geração Z – seja a primeira na história que, para todos os efeitos, foi criada em um mundo online.  Nos protestos em Myanmar, Tailândia e Hong Kong, isto significa que a organização, comunicação e divulgação dos movimentos têm uma proeminente faceta digital. A natureza transnacional da comunicação e cultura digital, por sua parte, faz com que os símbolos utilizados na região sejam grandemente familiares para a audiência global.

Desde que as vestes de Harry Potter apareceram em Bangkok no ano passado e a saudação de três dedos de Jogos Vorazes se tornou um símbolo anti-estabelecimento em Myanmar e em toda a região, as mensagens por trás dos protestos ficam mais claras para uma audiência global similarmente jovem. Mais do que isso: inspirados pelos casos em Hong Kong, Taiwan e Tailândia, os jovens ativistas de Myanmar se uniram à #MilkTeaAlliance (Aliança Chá com Leite, referência a uma bebida comum na região), que está unindo movimentos pró-democracia ao redor da Ásia de forma mais concreta. Estes gestos, para qualquer um que esteja familiarizado com as culturas pop e  digital, representam a solidariedade na luta contra um poder tirano e trazem, potencialmente, uma nova camada de pressão interna e externa sobre as questões.

ÍCONES E IDENTIFICAÇÃO SOCIAL

Com uma breve busca das notícias nas últimas décadas, é rapidamente possível identificar o uso de alguns dos mais conhecidos símbolos da cultura pop em muitos outros protestos populares. Desde a máscara de Guy Fawkes (V de Vingança, 2005) aparecendo em movimentos anarquistas e anti-estabelecimentos que abrangem desde Anonymous e Occupy Wall Street até os movimentos antivacina e o uniforme de The Handmaid’s Tale (2017) em marchas feministas e pessoas vestidas como o Coringa (2019) nos protestos do Líbano em 2019 (CASTRO e PINHEIRO-MACHADO, 2020). Mesmo sem considerar o que hoje chamamos de cultura pop, a presença de produções culturais em movimentos sociopolíticos não é nem um pouco nova: basta lembrar das canções de protesto como Bella Ciao e Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores, para não mencionar clássicos dos protestos burmeses como One Blood Oath de Htoo Ein Thin e Another is Encourage Mi Nge de Ko Ne Win.

Isto ocorre por que estes símbolos, facilmente reconhecíveis,  tornam-se a maneira ideal de gerar interesse emotivo pelo que está sendo exigido nos protestos (MAGALHÃES, POPPOLIN e SABBATINI, 2020). A iconografia, desta forma,  torna-se uma forma de capitalizar a cultura para representar ideias, evocar sentimentos e enviar uma mensagem às instituições políticas. Em particular nos últimos anos, o uso da cultura pop, de alcance categoricamente global devido à distribuição cultural em massa e às redes sociais, passam a emprestar a movimentos locais um significado global.

IDENTIDADE NA ERA DIGITAL E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

A comunicação em rede presente na internet se caracteriza pela maior democratização da comunicação, na qual as fronteiras entre produtores de conteúdo e audiência se borram e dão mais espaço para uma descentralização característica. A utilização de redes sociais que alcançam as gerações mais jovens, como Twitter, Tik Tok, Twitch e Youtube, desta forma, é cada vez mais uma maneira fundamental de socialização. Formam-se bolhas sociais com uma linguagem e senso de pertencimento próprios (GÜNDÜZ, 2017) exemplificados, por instância, na participação de espaços dedicados a determinadas peças de cultura pop (como fandoms, domínios de fãs dedicados a livros, séries e filmes), cuja linguagem é facilmente reconhecível em vários pontos do globo. A isto se associam os memes, com seus próprios níveis de intertextualidade, cuja ambivalência também os torna um componente ideal das críticas ao poder (MAGALHÃES, POPPOLIN e SABBATINI, 2020; CASTRO e PINHEIRO-MACHADO, 2020).

Se, por um lado, há uma crescente preocupação relacionada à perda de interesse ou confiança a instituições tradicionais por parte das gerações mais jovens, de acordo com Teng e Joo (2016), a juventude se torna mais adepta à política à medida em que a tecnologia a encoraja a fazê-lo. Devido à descentralização da internet, por outro lado, uma das características dos  movimentos organizados online é a falta de uma figura central e de institucionalização, como fica expresso em casos como a Primavera Árabe e Anonymous (CASTRO e PINHEIRO-MACHADO, 2020). Isso porque estes “novíssimos movimentos sociais”, como são chamados, passam a ser cada vez mais transnacionais e multilaterais, permitindo que se ergam milhares de vozes em um tabuleiro político praticamente ilimitado.

NOVOS PERFIS (FÍSICOS E DIGITAIS) DOS PROTESTOS

O uso da arte para representar desafios e críticas às injustiças sociais talvez seja tão antigo quanto a própria arte. Ela nunca foi, no entanto, tão rapidamente disseminada e globalmente reconhecível como hoje. Com esta imagem de perfil globalizada, portanto, há  maior facilidade em angariar suporte regional e internacional, sendo que estes movimentos se reforçam mutuamente, pois os protestos em Myanmar, afinal, também revitalizaram o momentum na Tailândia. Com o novo modelo de organização que a internet permite, ademais, abre-se espaço para uma miríade de possibilidades para a construção das lutas contra os regimes autoritários do sudeste asiático. Até os gigantes digitais – Facebook, Instagram e Twitter – passam a revalorar seus papéis na faceta digital destes movimentos, o que levou à decisão de banir militares birmaneses de suas plataformas.

A transformação pode ser promissora. No entanto, o modelo dos novíssimos protestos não é perfeito. A falta de liderança centralizada e a afirmação institucional já foram apontadas como causas centrais por trás da falha de movimentos como Occupy Wall Street em alcançar mudanças a longo prazo. Meses após o início dos protestos na Tailândia e o golpe de Estado em Myanmar, por instância, houve avanços e retrocessos, mas ainda é muito cedo para avaliar qual será o impacto da cultura digital sobre os âmbitos mais amplos de política e poder. Resta, portanto, estudar as transformações que ocorrem nos modelos de protesto do sudeste asiático. Enquanto os jovens manifestantes encontram novas formas de se expressar e comunicar, há uma teimosa esperança de que se consiga transformações longevas e benéficas para estas populações.  

REFERÊNCIAS

CASTRO, A. e PINHEIRO-MACHADO, R. Super-Heróis Manifestantes? Simbolismos da Cultura Pop Performatizados em Movimentos Sociais. Estudos sociológicos, v. 25, n.49, 2020.

GÜNDÜZ, U. The Effect of Social Media on Identity Construction. Mediterranean Journal of Social Sciences, v. 8, n. 5, 2017.

MAGALHÃES, D., POPPOLIN, G., SABBATINI, L. “Cortem a cabeça!”: brincadeira política e cultura pop como engajamento nos protestos do #15M. In: 44º Encontro Anual da ANPOCS. GT 26 – Movimentos Sociais: Protesto e Participação, 2020.

TENG, C.; JOO, T. Social Media: The Major Trigger of Online and Offline Political Activism. World Academy of Science, Engineering and Technology International Journal of Humanities and Social Sciences, v.10, n. 4, 2016.

Larissa Soares

Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa. Se interessa por diplomacia, organizações internacionais, estudos subalternos e queer, conflitos sociais e desenvolvimento.

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