LEMBRAI-VOS: A FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

LEMBRAI-VOS: A FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

Olá, seja bem vindo a mais um capítulo de Fabula Orbi, onde contamos a história da história. Novo por aqui? Confira nossos textos anteriores!

A história como ela é contada: memória e discurso Lembrai-vos: O nascimento do Brasil

Você sabe de onde eu venho?

(Canção do Expedicionário)

A criação da FEB tem suas origens em um encontro top secret entre Vargas e Roosevelt realizado em Parnamirim, Natal. O presidente americano havia chegado de uma reunião com Churchill e De Gaulle em Casablanca, Marrocos, onde discutiu os planos para a próxima fase da guerra. O Brasil estava incluso neles.

Frente a uma das maiores crises da humanidade, nossa política externa foi bastante exitosa. O governo conseguiu apoio para engatilhar o processo de industrialização, mas sem deixar a estrutura agrária ruir. Em troca, foi uma peça importante em âmbito estratégico ao abastecer os mercados aliados com alimentos e matéria prima e também no âmbito tático-operacional ao ceder posições territoriais e apoio logístico.

Só que para sentar na mesa das grandes potências, isso não basta. Você tem que pagar o preço de sangue.

[…] o Governo de Vargas decidiu levar às últimas consequências a participação do Brasil no conflito. Não se limitaria a franquear o território nacional às operações militares de forças estrangeiras. Pretendia mandar tropas ao campo de batalha, para armar o Exército e fortalecer a posição do país nas conferências de paz.”

(BANDEIRA, Moniz. Relações Brasil-EUA no contexto da globalização)

Assim, surge a Força Expedicionária Brasileira. 

A FEB no imaginário popular

Antes de narrar um pouco da história da FEB, convém dizer a quantas anda a reputação da velha expedição. Se você já teve contato com algum trabalho relativo ao assunto, é muito provável que tenha ouvido ou lido queixas sobre a subvalorização dessa história, isso porque desde muito tempo a FEB luta uma outra batalha, esta fora dos campos, mas dentro das mentes: a batalha contra o esquecimento.

Uma enquete foi veiculada no Instagram (no perfil do Dois Níveis e no meu) para capturar um retrato (uma “3×4”, digamos) da memória atual entre pessoas jovens, na faixa de 20 a 30 anos, com nível de escolaridade médio e superior e com acesso à internet. Vejamos:

Você sabe o que foi a FEB?

Sim Não
110 40
Elaboração própria.
  • Mais de ¼ dos votantes sequer conhece a FEB;

Você já teve contato com o tema fora da escola?

Sim Não
67 46
Elaboração própria.
  •  Quase 40% dos votantes nunca viu a FEB fora do ambiente escolar;

Qual a sua avaliação geral sobre ela?

Positiva Negativa
65 22
Elaboração própria.
  • ¾ dos votantes tem uma avaliação positiva;

Avaliação do impacto no contexto internacional.

Baixo Significativo Alto
37 46 15
Elaboração própria.
  • A maioria das pessoas acham que o impacto foi significativo. 85% dos votantes não atribuem alto impacto;

Avaliação do impacto no contexto doméstico.

Baixo Significativo Alto
23 33 25
Elaboração própria.
  • A distribuição é semelhante à pergunta anterior, porém com deslocamento visível para as duas categorias de maior importância. 72% dos votantes não atribuem baixo impacto.

O nível de 25% de desconhecimento total já é elevado considerando o recorte social da enquete. Esse número tem tudo para aumentar drasticamente se aplicado a pessoas com nível de formação e informação mais baixo. A ausência completa do assunto em parcela considerável da população significa esquecimento histórico.

Daquelas que conhecem, 6 a cada 10 pessoas já tiveram contato com o tema fora da escola. Pode até não parecer ruim, mas reserve um momento para pensar nos eventos famosos da nossa história: eles são referenciados no cotidiano com uma frequência maior do que você talvez perceba. Filmes, novelas, reportagens, exposições, homenagens, músicas, festividades, discursos e por aí vai… Se 40% nunca viu esse conteúdo fora do espaço acadêmico, é porque a produção cultural em torno dele é deficiente.

As demais questões da enquete servem para tentar identificar a coesão da(s) narrativa(s).

A maioria visível classifica a FEB como algo positivo, sinal de que a narrativa existente a favorece.
Pela distribuição dos votos, as pessoas dão um peso maior à FEB dentro do contexto doméstico, indicando que a narrativa privilegia o espaço e a dinâmica nacional.
A distribuição equilibrada dos votos dentro de cada contexto releva que não há uma narrativa hegemônica, podendo indicar certa pluralidade de narrativas ou falta de coesão naquela existente.

Cobra fuma?

Voltando à nossa expedição. 

A partir da decisão pelo engajamento militar, um ano e meio passou até que tropas brasileiras estivessem devidamente equipadas e treinadas. A demora e o histórico pacifista da nossa política externa logo suscitaram dúvidas na sociedade. É daí que surge a expressão “a cobra vai fumar”, pois passou a se dizer que seria mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil ir à guerra. 

No dia 2 de julho de 1944, o Rio de Janeiro, a então capital do país, assiste em êxtase o desfile do 1º escalão da Força Expedicionária Brasileira para embarcar rumo a Nápoles, Itália. A cobra fumou.

Escrever nos veículos ou nos projéteis é um hábito comum entre os soldados. Domínio público.

A FEB

Quem foram os soldados do Brasil?

Entre combatentes, agentes de saúde e engenheiros, foram mais de 25 mil homens e mulheres de todos os estados. Eram pessoas de diferentes perfis que de fato formavam um grupo bem representativo do país, na medida do possível. Inclusive os brasileiros despertavam curiosidade no estrangeiro, pois era a única força que dispunha de tropas miscigenadas, enquanto todos os outros exércitos eram segregados.

Além dos militares da ativa, o contingente era largamente formado por civis e reservistas, uns voluntários, motivados principalmente por questões ideológicas — havia muitos democratas e comunistas alistados —, outros convocados, sob pena de prisão por deserção. O perfil psicossocial dos pracinhas “estava entre o malandro e o Caxias”, como diz a historiadora Patrícia da Silva Ribeiro.

Os pracinhas se destacaram pela valentia em batalha e pela gentileza no trato com a população local. Domínio público.

A canção do expedicionário é uma obra que traduz bem o espírito com que o soldado brasileiro parte. É um homem que vai saudoso da sua terra e das pessoas que lá deixou, pede a Deus que o permita voltar com a vitória. A composição reúne uma série de elementos que formam a identidade nacional.

Para se ter uma perspectiva melhor, dividi esses elementos em 4 categorias a fim de compará-la com a Marselhesa, mais famosa marcha marcial do mundo.

CategoriaCanção do Expedicionário (nºs)Canção do Expedicionário (%)Marselhesa (nºs)Marselhesa (%)
Natureza15/3938%1/195%
Sociedade13/3933%5/1926%
Religião4/3910%0/190%
Militarismo7/3918%13/1968%
Elaboração própria.

A campanha

Foram 7 meses e 19 dias de confronto contínuo entre o desembarque na Itália e a capitulação dos nazistas. Àquela altura, o regime de Mussolini já havia caído, mas a Alemanha ainda ocupava o norte do país, enquanto a população local se dividia entre colaboracionistas, antifascistas e a imensa maioria alheia, pega no fogo cruzado.  

A ação da FEB se dá no contexto da fase final da guerra, quando os Aliados abrem 3 frentes contra a Alemanha — a oeste pela França, ao sul pela Itália  e a leste pela Polônia — para pressionar os nazistas em direção a Berlim. O Brasil chega para substituir o grande contingente de soldados ingleses deslocados da Itália para preparar o desembarque na Normandia, a partir do qual os Aliados começaram a liberação da França.

Dentro do teatro de operações italiano o avanço foi dividido em 6 frentes: 2 a cargo dos britânicos remanescentes, 2 com as forças estadunidenses e 2 com os brasileiros. O objetivo primário era quebrar a chamada Linha Gótica, a principal barreira defensiva dos nazistas ao sul, entrincheirada na Cordilheira dos Apeninos.

O principal momento da FEB no rompimento da Linha Gótica foi a Batalha de Monte Castelo, onde teve que lidar com condições duríssimas. Os brasileiros tiveram que avançar de baixo para cima, subindo o monte sob temperaturas de até 20 graus abaixo de zero, enfrentando minas terrestres, metralhadoras e granadas. Era perigoso até mesmo afivelar o capacete sob o queixo, pois o simples deslocamento de ar causado pelas granadas era o suficiente para estrangular alguém no próprio capacete.

Foram 4 investidas ganhando terreno por conta própria. Na 5ª e na 6ª, as tropas puderam contar com o apoio da FAB, a Força Aérea Brasileira (que também fora enviada junto à guerra com a FEB) e de uma divisão americana. Após a 6ª investida, Monte Castelo cai, consagrando o sucesso da missão brasileira.

Mas não parou por aí. Um segundo episódio célebre foi a liberação da cidade de Montese, onde os pracinhas combateram durante 3 dias consecutivos para continuar avançando a frente austral. Ainda hoje a cidade realiza homenagens, como neste vídeo de crianças italianas fofinhas cantando em português.

Também vai pra conta da FEB uma das primeiras rendições em massa da guerra. Mais de 14 mil soldados alemães foram cercados no caminho para Fornovo e se renderam.

O General Otto Fretter-Pico em conversações com o Major Franco Ferreira. Domínio público.

Ainda há muito mais a ser falado sobre esse momento singular do nosso país. Vou deixar algumas sugestões de documentários ao final do texto.

A batalha eterna

Antes mesmo de terminada a guerra, a FEB já se envolvia em outro confronto, mas de um tipo diferente: era a batalha discursiva pelo direito de contar sua história. Isso porque o Brasil entrou numa guerra pela democracia contra um regime totalitário, sendo justamente um país ditatorial. Era a época do Estado Novo, um governo de inspiração notadamente fascista, recheado de simpatizantes do Eixo.

O governo se colocou à frente cuidadosamente dos relatos de guerra trazidos pela imprensa e posteriormente das festividades da recepção, através do Departamento de Imprensa e Propaganda. O plano era usar a FEB para exaltar o regime varguista, de modo que era necessário suprimir a perspectiva de “vitória democrática” e focar na derrota da Alemanha em particular; era necessário conduzir o expedicionário à vida normal, de antes da guerra, e por isso a FEB foi desmobilizada ainda em solo italiano. Aos ex-combatentes, era proibido conceder entrevistas sem autorização prévia.

Entretanto, o regime já estava cambaleante, a sociedade efervescia pela democracia e a vitória só confirmava aquele ímpeto. Entre os próprios praças havia essa consciência, e muitos continuaram a luta em casa. Para os setores democráticos a FEB se tornou um símbolo de luta pela democracia, servindo de inspiração. No mesmo ano, o Estado Novo chegou ao fim e a narrativa do herói democrata se sagrou vitoriosa.

Nos anos que se seguem, associações de veteranos se formam com o objetivo de manter a memória dos expedicionários viva e pleitear por assistência social do governo para seus representados. Esse primeiro período foi a época em que se erigiu mais monumentos aos pracinhas pelo país e durou até meados da década de 60.

O Golpe de 64 marca uma nova inflexão na narrativa. Os quadros administrativos das associações foram substituídos por pessoas próximas do novo governo, afiliados contrários ao regime tiveram seus direitos cassados. Interessante perceber que o próprio corpo militar precisava passar pelo escrutínio do regime. Como exemplo, o veterano Dilermando Melo do Nascimento foi encontrado morto após interrogatório na sede do Ministério da Justiça.

A narrativa ganhou um tom predominantemente descritivo com foco sobre as vitórias militares no campo de batalha e a liberdade pela qual os pracinhas lutaram foi subvertida em uma outra noção de liberdade. Afinal… a “Contrarrevolução de 64” ocorreu para preservar a liberdade da nação ante a ameaça comunista. Era essa a ideia.

Além disso, houve um processo de encapsulamento da memória, deixando-a restrita ao meio militar, retirando-a do seio civil. As celebrações da FEB ocorriam no círculo social militar, apenas.

Duas décadas depois, o fim do regime trouxe uma nova fase. O trauma causado pela ditadura militar levou à condenação e ao repúdio de tudo aquilo que estava ligado a ele. A memória da FEB foi atirada ao lixo nas décadas que se seguiram. Essa fase revela um processo de esquecimento voluntário.

Monumento ao Expedicionário na Praça Afonso Arinos, Belo Horizonte/MG. Portal da FEB.

Hoje, a sociedade brasileira está recuperando gradualmente seus heróis de outrora, através do trabalho de historiadores, das associações renovadas e de alguns outros setores interessados. O foco dessa nova narrativa busca dar uma quebrada nos moldes romantizados iniciais ao olhar com mais cuidado para o indivíduo, além de procurar fazer um enquadramento de conjuntura mais assertivo, graças ao distanciamento de tempo, mas sem deixar de imprimir uma boa dose subjetiva de orgulho, que é sim muito merecida e necessária.

Por fim um trecho de uma entrevista do ex-combatente Ítalo Conti:

“Para nós, a FEB constitui a nossa vida, nós fomos para a Itália, lutamos e nunca esperamos benefícios, nunca esperamos reverências, a única coisa que nós queremos é não sermos esquecidos”

Ítalo Conti

Jamais serão.

Obras sugeridas

A Cobra Fumou
O caminho dos heróis – A verdadeira história da FEB na Segunda Guerra Mundial
“LIBERATORI” – A FEB vista pelos italianos

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FLORES, Rodrigo M. O jogo de luz e sombras: os usos e abusos de uma memória sobre a força expedicionária brasileira (1945 – 2019). Viçosa. Universidade Federal de Viçosa, 2019.

OJEDA, Caroline M. Força expedicionária brasileira: memórias de guerra e formação de identidades. Florianópolis. XXVIII Simpósio nacional de história, 2015.

RIBEIRO, Patrícia da S. Em luto e luta:construindo a memória da FEB. Rio de Janeiro. Fundação Getulio Vargas, 2013.

Na telinha. A cobra fumou. 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=LY_YaTJLC4E>

Aprendendo com a história. O caminho dos heróis: a verdadeira história da da FEB na segunda guerra mundial. 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=rdKI9hKbVxE>

Mulhercafeerockinrol. O Brasil na 2 Guerra Mundial – A Força Expedicionária Brasileira na Itália (Documentário Completo). 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7rDapiS5L8s>
Nerdologia. A FEB e a Segunda Guerra Mundial | Nerdologia. Disponível. 2018 em: <https://www.youtube.com/watch?v=jntNotNNq-Y>

Iago Dalfior

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