NÃO EXISTE UM FEMINISMO LATINO-AMERICANO

NÃO EXISTE UM FEMINISMO LATINO-AMERICANO

Antimonumento colocado onde havia um monumento de Cristóvão Colombo, onde ficou conhecido como “Glorieta de las mujeres que luchan”, no Paseo de la Reforma, na Cidade do México (Fonte: Luis Alvaz/Wikicommons).

Segundo a autora Rosa Cobo Bedia pontua, no seu texto Aproximaciones a la teoria crítica feminista (2014), não existe um feminismo latino-americano, da mesma forma que não é possível falar de um feminismo europeu ou africano, dado que em nenhum desses casos estaremos lidando com uma realidade homogênea. Dessa forma, a autora traz que, na verdade, temos debates feministas na América Latina. Contudo, esse debate ainda peca ao criar relações de subalternizações internas e encontra pontos de conflito. Não existe um feminismo latino-americano e não deve mesmo existir, mas talvez seja necessário um giro decolonial dentro desse amplo debate para podermos caminhar efetivamente para frente.

Origem do feminismo na América Latina

Falar sobre a origem do feminismo na América Latina é um grande desafio, pensando no grande número de países que compõem a região, com tantas particularidades nesses processos sociais e políticos. Porém, considerando que, em linhas gerais, a colonização foi um fenômeno comum a todos, é impossível traçar uma contextualização sobre opressão feminina na América Latina e ignorar suas raízes coloniais. Dessa forma, Ballestrin (2017) aponta que “o corpo feminino pode ser pensado como o primeiro “território” a ser conquistado e ocupado pelo colonizador” (p. 1038).

Todavia, enquanto o século XIX sublinha as opressões femininas, podemos considerar que foi ao longo do século XX, dentro das possibilidades de cada país, que tivemos um ponto de partida da estruturação das teorias feministas na América Latina. Assim, ainda que não como um movimento de massa e com vínculos com o feminismo ocidental (Gargallo, 2007), a luta feminista vem associada aos esforços contra as ditaduras vigentes em boa parte da região, bem como um discurso antineoliberal e contra a pobreza, que impactava de forma mais intensa as populações indígenas e camponesas, que no mercado de trabalho possuíam salários mais depreciados e menos reconhecimento social (Barrancos, 2022).

Participação feminina em manifestação estudantil contra a Ditadura Militar brasileira, em 1968
Participação feminina em manifestação estudantil contra a Ditadura Militar brasileira, em 1968 (Fonte: Arquivo Nacional).

Logo, vale destacar também o encontro que ocorreu, no final dos anos 90, entre as teorias feministas e as decoloniais (Barrancos, 2022). Portanto, é colocado à luz a impossibilidade de falar de descolonização e sobre ser mulher na América Latina ignorando a colonialidade da relação de gênero (Lugones, 2014). Esse encontro se faz essencial para que haja uma provocação para um afastamento em relação às teorias hegemônicas – dentro das teorias feministas latino-americanas –, além de elucidar aos autores decoloniais que não dá pra lutar contra as pressões da modernidade (Ballestrin, 2013) sem criticar a hierarquização dos gêneros, mesmo que pareça tentador a muitos teóricos.

Feminismos latino-americanos

Além do próprio caráter antineoliberalista já citado, os feminismos que se formam na América Latina também se desenvolvem a partir de características geográficas, históricas e culturais muito próprias e diversas (Mohanty, 2008). Assim, Ballestrin traz ainda:

É importante observar que, na América Latina, a preocupação interna do feminismo com a questão das diferenças (classe, raça, etnia, sexualidade) começou a ser provocada pela própria expansão do campo em direção aos diferentes movimentos de mulheres (não necessariamente feministas) já nos anos 1980. Como resposta às dificuldades do contexto marcado pelo empobrecimento e violência, o crescente engajamento e a mobilização feminina diversificaram o perfil também do feminismo: “em contraste à face branca/mestiça e de classe média do feminismo nos seus primeiros tempos, o movimento de mulheres dos anos 1980 floresceu com uma composição predominante de mulheres pobres, trabalhadoras, e/ou negras e indígenas” (ALVAREZ et al., 2003, p. 548). 

Ballestrin, 2020, p. 7

Nesse sentido, as teorias feministas latino-americanas carregam ainda um compromisso que Marlise Matos (2012) denomina ser “pluriversal”. Isto é, um campo crítico-emancipatório que “respeita e acolhe as múltiplas particularidades locais nas lutas contra o patriarcado, contra o racismo, a misoginia, a homofobia, a lesbofobia, a transfobia, o próprio capitalismo como ele está, na colonialidade e na modernidade euro-anglocentrada” (Matos, 2012, p. 94). Contudo, mesmo esses esforços não impedem que surjam relações de subalternidades, tanto pensando no diálogo feminista num todo, como na própria esfera latinoamericana.

Os conflitos das teorias latino-americanas – na verdade, de todas aquelas oriundas do Sul Global – com as teorias hegemônicas são explicitadas por Ballestrin (2017): 

O feminismo ocidental […] passou a ser acusado por seu universalismo, etnocentrismo, anglo-eurocentrismo, branqueamento e pela negligência de questões coloniais e raciais que atravessam etnias, nacionalidades e geografias. […] E, assim como o feminismo ocidental passou a ser julgado por essencializar, inferiorizar e vitimizar as mulheres do “Terceiro Mundo”, o feminismo terceiro-mundista respondeu utilizando a mesma operação ao essencializar, superiorizar e responsabilizar as mulheres feministas do Primeiro Mundo.

Ballestrin, 2017, p. 1040

E essas relações de subalternidade se repetem, mesmo pensando na esfera de diálogo latinoamericana. Nesse contexto, são criados certos universalismos “regionais” e um novo “paradoxo da representação feminina”, em uma tentativa de estereotipar essa mulher que é vista pelas teorias feministas latino-americanas, enquanto o processo seria justamente de mostrar que é impossível definir um rosto para essa representação feminina que deverá ser tão diversa. Logo, dentro desse leque de teorias que já é entendido como subalterno, a partir da geopolítica do conhecimento, acabam-se definindo novos padrões de subalternidade

Grupo de trabalhadoras e mulheres indígenas protestando em Quito, em 18 de junho de 2015, contra o governo de Rafael Correa Delgado, então presidente do Equador
Grupo de trabalhadoras e mulheres indígenas protestando em Quito, em 18 de junho de 2015, contra o governo de Rafael Correa Delgado, então presidente do Equador (Fonte: Micaela Ayala/Agencia de Noticias ANDES).

O papel do feminismo de(s)colonial

Nessa pirâmide de subalternizações, o feminismo de(s)colonial se faz um promissor meio de articulação entre as teorias. Dessa maneira, cabe também ao feminismo de(s)colonial direcionar seus esforços para construir efetivamente um plano de descolonização que toque as demais teorias, não num sentido raso de afastá-las das lentes hegemônicas por um capricho binarista, dividindo as teóricas entre “nós” e “elas”, mas criando consciência do nosso caráter “pluriversal” abordado anteriormente.

Assim, ainda a partir dos trabalhos de Ballestrin (2020) deve-se garantir que a categoria “colonialismo” esteja inserida nas mais diversas teorias e que continuemos a tecer críticas entre as diferentes noções e abordagens, sendo essa a única forma de impulsionar o crescimento do debate. Contudo, é importante ressaltar que não estou apontando que deveria haver uma nova uniformização teórica, mas sim que haja uma base comum descolonial e decolonial. 

Ou seja, que esteja alinhada a ideia histórica de descolonização, via liberdade nacional, mas que também seja um projeto decolonial alinhado especificamente à proposta do Grupo Modernidade/Colonialidade – proposto pelo sociológo Anibal Quijano –, com a retirada da letra S (Ballestrin, 2013). Logo, o feminismo de(s)colonial deve adotar como missão principal a descolonização das teorias com as quais divide espaço, do conhecimento, da própria noção de gênero e, em última ambição, do Estado (Ballestrin, 2020).

3º Encontro de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, em Manaus, ocorrido em 2014 (Fonte: Alberto César Araújo/Amazônia Real). 

Considerações finais

Não há um feminismo latino-americano e nem sequer deveria haver. A tentativa de unificar a teoria, ao contrário de pluralizar os pontos que alcança, nos leva a cair em novos paradoxos da representação feminina, tentando também unificar quem somos e por quem estamos lutando. Porém, deveria haver um giro decolonial específico a cada teoria. Isto é, que os vários feminismos latino-americanos sejam diferentes entre si, tocando diferentes pontos e impedindo que hajam pontos cegos, mas que sejam todos, inerentemente, de(s)coloniais.

De maneira similar, urge que haja dentro das teorias decoloniais um giro equivalente, que force o olhar às questões de gênero, embora parte de seus teóricos venham evitando priorizar essa questão a partir da premissa de que o feminismo ignora questões relacionadas ao colonialismo e à divisão internacional do trabalho. Essa ideia pode ser ilustrada por Miñoso (2014), que coloca que “há uma origem majoritariamente burguesa, branca/mestiça, urbana e heteronormativa no feminismo latino-americano” (p. 314), o que por si só já é o suficiente para invisibilizar diversas vertentes teóricas do feminismo latino-americano.

Além disso, de certa forma, temos aqui uma nova representação do binarismo teórico denunciado entre as feministas do ocidente e as latino-americanas, onde uma barreira é colocada a fim de separar quem somos e quem eles são. Nesse exercício, superiorizamos uma pesquisa em detrimento da outra, criando barreiras para o efetivo avanço, que deveria ser feito a partir de revisões críticas e de um olhar direto para os problemas que tocam a pele de mulheres latino-americanas. Interrompendo esse vício de produzir e reproduzir subalternizações, podemos alcançar a libertação das amarras patriarcais e coloniais que sustentam a colonialidade das relações de gênero.

Recomendações

Caso queira continuar lendo sobre feminismo descolonial, o texto Rumo a um feminismo descolonial, da argentina María Lugones, pode ser um bom ponto de partida.

Caso tenha interesse em continuar lendo sobre articulações de mulheres na América Latina, o Dois Níveis tem algumas produções nesse campo, entre as quais vou deixar três aqui:

Referências

BALLESTRIN, Luciana Maria de Aragão. América Latina e o giro decolonial. Revista brasileira de ciência política, p. 89-117, 2013.

BALLESTRIN, Luciana. Feminismo de(s)colonial como feminismo subalterno Latino-Americano. Revista Estudos Feministas, v. 28, p. e75304, 2020.

BALLESTRIN, Luciana Maria de Aragão. Feminismos subalternos. Revista Estudos Feministas, v. 25, p. 1035-1054, 2017.

BARRANCOS, Dora. História dos feminismos na América Latina. 1. ed. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2022.

BEDIA, Rosa Cobo. Aproximaciones a la teoria crítica feminista. Boletín del Programa de Formación, Lima, CLADEM, n. 1, 2014.

GARGALLO, Francesca. Feminismo latinoamericano. Revista venezolana de estudios de la mujer, v. 12, n. 28, p. 17-34, 2007.

​​LUGONES, María. Rumo a um feminismo descolonial. Revista Estudos Feministas, v. 22, p. 935-952, 2014.

MATOS, Marlise. O Campo Científico-critico-emancipatório das Diferenças como Experiência de Descolonização Acadêmica. In: Flavia Biroli; Luis Felipe Miguel. (orgs). Teoria Política e Feminismo. Belo Horizonte: Vinhedo, 2012, v. 01, p. 47-101.

MIÑOSO, Yuderkys Espinosa. “Etnocentrismo y colonialidad en los feminismos latino-americanos: complicidades y consolidación de las hegemonías feministas en el espacio transnacional”. In: MIÑOSO, Yuderkys Espinosa; CORREAL, Diana Gómez; MUÑOZ, Karina Ochoa (Eds.). Tejiendo de otro modo: Feminismo, epistemología y apuestas descoloniales en Abya Yala. Popayán: Universidad del Cauca, 2014.

MOHANTY, Chandra Talpade. Bajo los ojos de Ocidente: feminismos académicos y discursos coloniales. In: NAVAZ, Liliana; CASTILLO, Rosalva (Eds.). Descolonizando el feminismo: teorías y prácticas desde los márgenes. 2008. Disponível em: http://webs.uvigo.es/ pmayobre/textos/varios/descolonizando.pdf

Ana Laura Baia de Morais

Mineira, graduanda em Relações Internacionais pela UFG e mãe de gato. Estudo sobre feminismo, tráfico humano e decolonialidade. Artista nas horas vagas, amante de criar playlists novas e um bom rolê de queijos e vinhos.

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