LEMBRAI-VOS: O 11 DE SETEMBRO

LEMBRAI-VOS: O 11 DE SETEMBRO

Olá, seja bem vindo a mais um capítulo de Fabula Orbi, onde contamos a história da história. Novo por aqui? Confira nossos textos anteriores!

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O atentado terrorista de 11 de setembro é um marco da história contemporânea.  A data marca uma virada na ordem mundial, pois a partir deste dia a hegemonia absoluta dos Estados Unidos, que iniciara 10 anos antes com a queda da União Soviética, começou a ruir. Fato que não ocorreu  em razão do ataque em si, pois seus efeitos práticos sob o poderio americano foram insignificantes, com efeito, o domínio estadunidense já tinha chegado ao seu limite natural, frente a outros atores que já estavam em ascensão ou se reestruturando, como a China, União Europeia e Rússia. O impacto real do 11 de setembro está na resposta que desencadeou – agressiva e pouco efetiva – que contribuiu para solapar as instituições emanadas da Carta da ONU, além do seu forte simbolismo: foi o 1º ataque externo sofrido pelos Estados Unidos em seu território continental.

Devido ao peso político do evento, ao desastre humanitário causado e à intensa cobertura em imagens e testemunhas, o 11 de setembro é relembrado anualmente no Ocidente e, portanto, sua memória está em plena construção, sujeita a transformações constantes. Como nosso leitor sabe, a memória social coletiva é uma resultante do fator psicológico, a qual determina como as pessoas processam o evento e como ele é relembrado e também do fator político, o qual determina o ambiente em que essa lembrança é construída.

Guerra e Terror

O discurso hegemônico na mídia Ocidental trata o ocorrido como um ato terrorista sem muita margem para polêmica, mas nem sempre ele é tratado assim. Outras regiões do globo, sobretudo no mundo árabe, e algumas vozes dissonantes por aqui, o colocam como um ato de guerra. A diferença quanto à abordagem pode parecer um preciosismo semântico, mas carrega consigo uma boa dose de legitimidade, afinal a guerra, por mais que gere tanto terror quanto qualquer atentado, é um meio político a que os Estados sempre recorreram.

O ataque foi conduzido por 19 militantes da Al Qaeda, que se dividiram em três grupos de cinco indivíduos e um de quatro integrantes para sequestrar quatro aviões comerciais. Os dois que receberam mais atenção atingiram as torres gêmeas do World Trade Center (símbolo econômico), um terceiro atingiu o pentágono (símbolo militar) e o quarto se dirigia ao Capitólio em Washington (símbolo político), mas caiu antes de concluir o objetivo, supostamente devido à reação dos passageiros.

O mandante da operação e então líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, foi responsabilizado e caçado pelas forças americanas desde então. À época, Bin Laden já era um dos mais procurados pelo FBI por seu envolvimento em outros dois ataques a embaixadas americanas (uma no Quênia e outra na Tanzânia). As ofensivas vinham acompanhadas de mensagens conclamando o mundo islãmico para uma jihad (guerra santa contra os inimigos do islã) contra os Estados Unidos. 

Dez anos depois, Bin Laden foi morto numa operação no Paquistão.

Televisão, Internet e Memória

As fontes tradicionais de memória – a historiografia, a educação, a arte, os depoimentos e etc. – continuam funcionando plenamente nos dias de hoje, mas uma nova fonte poderosa se faz ecoar: a mídia. O alcance e a capacidade de reprodução dos meios de comunicação de massa oferecem um instrumento poderosíssimo de construção de memória, porém, nem sempre controlável. 

O próprio evento do 11 de setembro sofreu uma influência inusitada dessa profusão de informações e relatos. Uma memória coletiva falsa sobre o atentado, confeccionada na internet, sobreviveu durante muitos anos entre a geração mais nova aqui no Brasil –  a “fanfic” de que o plantão da Globo interrompeu um episódio de Dragon Ball Z. A criação de memória coletiva falsa popularizou-se pelo nome “Efeito Mandela” e de tempos em tempos, alguma acaba vindo à tona.

Isso acontece primeiramente devido ao fenômeno da flashbulb memory. Uma “memória flash” ocorre durante um evento com forte carga emocional e é capaz de captar todos os detalhes do momento e imprimi-los instantaneamente na nossa memória de longo prazo. É por isso que, mesmo anos depois, as lembranças surgem de forma vívida em nossas mentes, de modo que podemos fornecer muitas informações com aparente precisão certeira.

Todavia, as lembranças não são armazenadas como “arquivos de vídeo” no nosso cérebro, na verdade estão mais próximas de fotos ou imagens sequenciais. Então, dentro da sequência imagética de uma lembrança é possível que existam vazios. Esses vazios são preenchidos por outras imagens que deem coerência e sentido àquela lembrança em sua forma completa. 

No primeiro texto da coluna explicamos: 

“Pense numa tela em branco: cada lembrança de um determinado objeto é uma pincelada que desenha a memória dele. Além disso, cada vez que essas lembranças são reproduzidas, a pintura é reforçada e, por outro lado, se não o são, a pintura se desbota, podendo desaparecer. Ademais, outras pessoas podem te resgatar novas lembranças e acrescentar novas pinceladas ao quadro (…)”

Ou seja, muitas vezes nossos vazios são preenchidos por memórias que não são nossas. 

Como se não bastasse, a lembrança é fortemente tendenciada pelos sentimentos e desejos da pessoa. Quem nunca passou por aquela situação em que a pessoa enfeita uma história para se sair melhor nela, mas você lembra exatamente como aconteceu? Nem sempre é mentira, às vezes, de fato, ela ‘se lembra’ daquilo. Provavelmente todo mundo já fez isso um dia, inclusive.

20 anos depois e um novo olhar

Vinte anos depois as imagens ainda causam impacto e o tema desperta interesse. Entretanto, o modo como as pessoas encaram essa catástrofe vem mudando ao longo do anos devido a alguns fatores.

O distanciamento temporal permite com que as pessoas vejam e analisem os fatos de forma mais sóbria, sem a polarização do presente. A máquina de propaganda do governo americano passou a operar a todo vapor logo depois do atentado, a tal ponto de ser difícil não se solidarizar com os americanos, vistos como vítimas de uma atrocidade gratuita. Anos depois, essa propaganda já não é tão extensa, permitindo que visões dissidentes tenham espaço.

Somando-se ao recuo da propaganda observamos o fracasso da Guerra ao Terror e a atenção recebida pela questão da islamofobia. São debates que ajudam a desconstruir a visão maniqueísta que predominou nos primeiros anos.

O 11 de setembro não foi a cena de um duelo entre o bem e o mal, mas (mais) um episódio lamentável da intrincada política internacional. Quando se está à frente da política externa de um país, principalmente no jogo das grandes potências, os dirigentes precisam ter em mente o possível backlash (ou efeito colateral) de suas ações. 

Em um dado momento, os Estados Unidos, para proteger seus interesses, optaram por treinar e armar grupos fundamentalistas, que mais tarde perceberam sua cultura sendo atacada pelo próprio Estados Unidos, graças aos anos de ocupação e intervenção na região.

Nem por isso o ataque deve ser menos lamentado ou a conduta dos terroristas menos condenável. Mas que se tenha a noção precisa de que toda ação gera uma reação, para que se cobre a devida responsabilidade de quem exerce o poder.

Referências Bibliográficas

DALFIOR, Iago. A História como ela é contada: Memória e discurso. Rio de Janeiro, 2021. Disponível em: <https://www.doisniveis.com/doisniveis/a-historia-como-ela-e-contada-memoria-e-discurso/>

Atentados de 11 de Setembro: a tragédia que mudou os rumos do século 21. BBC. 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55351015>

HARTIG, Hannah. DOHERTY, Carroll. Two Decades Later, the Enduring Legacy of 9/11. Pew Research 2021. Disponível em: <https://www.pewresearch.org/politics/2021/09/02/two-decades-later-the-enduring-legacy-of-9-11/>

FORATO, Thiago. As falsas memórias no 11 de setembro sobre a interrupção de “Dragon Ball Z”. UOL, 2017. Disponível em:< https://natelinha.uol.com.br/colunas/enfoque-nt/2017/09/11/as-falsas-memorias-no-11-de-setembro-sobre-a-interrupcao-de-dragon-ball-z-110418.php>

SciHow Psych. Your Most Vivid Memories Aren’t As Accurate As You Think. Youtube, 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=3kE1M-MfXxc>

The School of Ireland. PSYCH: FLASHBULB MEMORIES. Youtube, 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=bLaRYETCPJY>

Iago Dalfior

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